VIAGENS OITOCENTISTAS: “A MORTE DE JESUS” E A RELÍQUIA

 

Aparecida de Fátima Bueno – Univ. Federal de Viçosa

 

 

 “A morte de Jesus”, conto considerado inacabado pelos exegetas queirosianos, foi publicado inicialmente na Revolução de Setembro, entre 13-4-1870 e 8-7-1870, escrito três meses depois de o escritor português retornar de sua viagem à Terra Santa[1].

Batalha Reis – que nos informa a respeito das leituras que Eça estaria fazendo ao retornar da viagem que empreendeu ao Oriente, entre elas a Vie de Jésus, de Renan, e Les mémoires de Judas, comenta que “Foi sob estas influências que, – com as impressões locais da sua recente viagem à Palestina, – [Eça] começou, em Lisboa, a escrever a Morte de Jesus[2].

O conto se inicia com um pequeno prólogo em que Eça de Queiroz, num evidente jogo com o leitor, nos dá conta de como teve “acesso” ao manuscrito que originou a história por ele narrada:

 

Por estranhos acasos encontrei este velho manuscrito copiado, num latim bárbaro, do antigo papiros primitivo. Não o traduzo textualmente: seria incompreensível, irritaria os nossos hábitos críticos, psicológicos! Transporto para a linguagem moderna, complexa, dúctil, sábia, o estreito dizer antigo.

Assim ordenado, este documento, que não encerra coisas novas, põe todavia em relevo muitos estados de espírito, muitas situações civis de uma pessoa excepcional, que tem notavelmente merecido nestes últimos tempos a atenção da história e da critica.

 

Jerusalém, Mediterranean Hotel, no Acra, 7 de Dezembro de 1869.[3]

 

O escritor se assume aqui enquanto autor indireto da obra, já que opta por não traduzir textualmente o manuscrito encontrado, mas por adaptar o texto original à linguagem moderna. Obviamente, este tipo de jogo que se estabelece com o leitor, jogo este tão antigo, provavelmente, como o ato de narrar histórias que se pretendam retratos da realidade, tem a função de garantir “um certo estatuto de verdade histórica à matéria narrada proporcionando, ao mesmo tempo, um estatuto de historiador ou de cronista ao autor”. Aliás, o motivo do manuscrito encontrado possui longa tradição na literatura européia e tinha sido largamente utilizado no Romantismo português[4].

Como sabemos, o escritor português havia retornado de uma viagem ao Oriente, realizada por volta de três meses antes (23-10-1869 a 3-1-1870) do início da publicação desse conto, e cujas impressões resultaram, entre outras, nas edições póstumas O Egipto, notas de viagem (1926) e Folhas soltas (1966) organizadas pelos filhos do romancista[5]. Fica evidente que ao colocar no prólogo que encontrou este velho manuscrito, que dá origem ao seu texto, e encerrar esse prólogo com a referência a Jerusalém, Mediterranean Hotel, no Acra, 7 de Dezembro de 1869, o autor de A relíquia tem obviamente a intenção de assegurar ao leitor que foi ele próprio, Eça de Queiroz, quem encontrou este velho manuscrito durante a viagem que acabara de realizar, o que garantiria a autenticidade do documento encontrado. Utiliza, portanto, um dado de sua experiência pessoal para facilitar o jogo que quer realizar no âmbito de sua obra de ficção.

O que gostaríamos, entretanto,  de destacar é que já no prólogo o autor anuncia que considera Jesus “pessoa excepcional”, e é essa perspectiva que orientará o modo como Cristo será retratado no restante do conto. Quando publica o romance que conta as memórias do Raposão, A relíquia, em 1887, a postura de Eça será muito diferente já que o Jesus, ali retratado, é apenas um pobre moço da Galiléia e não tem nada de excepcional.

Também composto na primeira pessoa, como A relíquia, “A morte de Jesus” narra as memórias de um homem, Eliziel, que na juventude foi capitão de polícia no Templo. Já “velho e inclinado para a sepultura”[6], como diz, decide registrar um episódio de sua vida, do tempo em que foi soldado, quando conheceu Jesus de Nazaré. A priori, apesar de o seu narrador não assumir explicitamente que tem uma intenção evangelizadora, o texto de Eliziel poderia ser considerado, entretanto, como um Evangelho apócrifo, muito diferente, porém, do texto de Teodorico Raposo.

Eliziel começa as suas recordações questionando onde estão os que conviveram com Jesus:

 

Os outros onde estão? Onde estais Thomaz, Matheus, Simão, Pedro, João? Onde estais vós? Judas de Karioth sei que morreu obscuro e sossegado no campo de Haceldama; (...). Onde estão os mais: Nicodemos, Joseph, Maria, as santas mulheres, Cleophas, Gamaliel, o sábio doutor? Uns estão no vale de Josaphat, outros no vale de Hinon, todos esquecidos. Tanto a memória do homem é como a onda fugitiva e pérfida![7].

 

Preocupado em “que se não perca a lembrança daquele homem justo e bom”, é que ele, como diz, procura “dizer com simplicidade e verdade tudo quanto vi e compreendi da sua vida, tão breve pelos dias, tão longa pelas dores”[8].

Eliziel conhece Jesus quando este está a expulsar os vendilhões do Templo. Simpatiza-se imediatamente com ele, talvez por compartilhar de sua indignação:

 

Mas o que, na vida do templo, me indignava superiormente era o vê-lo tornado um lugar de comércio, de venda e de troca de moeda. E foi por esses odiosos mercadores do templo (...) que eu conheci o homem inefável, por quem os meus olhos ainda se umedecem.[9]

 

É interessante que o mesmo episódio, o da expulsão dos mercadores do Templo, é tratado de modo tão diverso nos dois textos de Eça. Em A relíquia há claramente uma condenação ao ato de Jesus, por prejudicar apenas os mais pobres. Já no conto que estamos analisando, o protagonista, além de estar dirigindo-se  ao local, cheio de cólera, para os condenar, ou seja, ter um comportamento similar ao de Jesus, tal como o registra a tradição, enaltece, admirado, a atitude daquele homem da Galiléia, mostrando também que, ao redor, muitos simpatizaram-se com esse ato:

 

Eu ia, cheio de cólera, para os condenar, quando vi em redor uma confusa gente dominada pelo forte ruído duma voz: defronte dos mercadores, havia um homem de pé, que lhes falava. (...) tinha as feições inflamadas, os olhos cheios duma luz indignada: a sua estatura, erguida pela cólera, enobrecida pela justiça das suas palavras, cheia do seu pensamento, fazia-o parecer mais que um homem.

(...)

E com a mão violenta empurrou-os largamente para além das colunas. Eles iam, tomados de temor. Os homens em redor tinham uma aprovação simpática para o da Galiléia: alguns riam: havia crianças assustadas que gritavam. Eu olhava, admirado.[10]

 

Certamente, a simpatia que o capitão de polícia do Templo nutre por Jesus, desde o seu primeiro contato com ele, é muito diferente dos sentimentos de Teodorico Raposo. É preciso destacar que enquanto em A relíquia, temos uma visão rebaixada de Cristo, já que o seu protagonista age o tempo todo no sentido de dessacralizar a sua imagem, em “A morte de Jesus”, Eliziel tem a clara intenção de enaltecer, elevar e registrar a vida daquele que considera “homem justo e bom”. Mais que isto. N’a relíquia, a ironia eciana parece estar no auge, presente o tempo todo. Podemos pensar que o próprio caráter de Teodorico, de um reles devasso, como Pinheiro Chagas o qualificou, não admitiria que nenhum dos temas abordados em suas memórias recebesse um tratamento elevado, ou pelo menos tornaria inverossímil esse tratamento. No caso de Teodorico temos um personagem de caráter duvidoso, que diz que a história de sua vida encerra uma lição lúcida e forte e conclui que o que lhe faltou, para que tudo desse certo, foi o descarado heroísmo de afirmar, ou seja, a lição lúcida e forte que pretende transmitir, e que aprendeu de suas experiências, é a da necessidade de uma ilimitada hipocrisia. Já o narrador de “A morte de Jesus” tem um caráter e perspectiva bem diversos.

Eliziel é um soldado do Templo. Podemos supor que por ter a função de proteger um espaço considerado sagrado, ele poderia representar, no conto, o guardião de uma série de valores que estão associados à ordem do sagrado, isto é, a códigos éticos e morais elevados, muito distintos, portanto, dos que na realidade tem Raposão. Afinal, o sobrinho de D. Patrocínio, como vimos, apenas finge possuir valores religiosos e morais com o objetivo prosaico e comezinho de, num primeiro momento, herdar os bens da titi, e, num segundo, dar-se bem diante da Burguesia Liberal, da qual quer fazer parte[11]. Ironicamente, o personagem de Eça parece ficar entre Deus e o Diabo, entre o pacto com um Portugal conservador e tradicional, da religião beata dos que fanaticamente crêem nela, ou fingem essa crença, como é o caso de Teodorico ainda sob a guarda da tia Maria do Patrocínio, ou vender a alma a esse Mefistófeles moderno, que n’A relíquia assume a face da Burguesia Liberal[12].

            Voltando ao conto, após o primeiro encontro que tem com o Rabi da Galiléia, Eliziel passa a buscar informações sobre este homem que conheceu no Templo e que tanto o impressionou. É informado por João, um galileu que acompanha Jesus, que lhe conta, “em palavras simples, mas penetradas de fé e de desejo”, todo o passado do Mestre de Nazaré[13]. Há trechos dessa narrativa que são uma verdadeira paráfrase do texto bíblico, o que reforça a nossa hipótese inicial de considerá-lo com um intuito evangelizador:

 

– O céu é dos simples – dizia ele – Os que choram serão consolados; os miseráveis possuirão a terra. Tendes fome e sede de justiça? Vinde a mim: sereis saciados. Sede pacíficos, sede puros. Se vos perseguirem no reino da terra, abrir-vos-á o reino do céu. Segui-me, segui-me!...

 

– Se vos ferirem, oferecei-vos; se vos odiarem, amai; se vos perseguirem, orai! Que mérito há em amar os que nos amam?

 

– Quando tu deres a esmola – dizia o Mestre de Nazaré – que a tua mão esquerda não saiba o que fez a direita.

E esta palavra enchia-me o coração. (...)

 

Tal era Jesus, segundo João. Eu estava cheio de admiração. (...)[14]

 

Eliziel indaga a João o que trouxe Jesus de Nazaré a Jerusalém. Depois de descobrir que ele vem pregar no Templo, fica apreensivo e pede que João convença Jesus a retornar a Tiberíade: “Diz-lhe que não venha nunca encostar-se como profeta à coluna do templo! Que volte para Galiléia, que se lembre das pedras que estão à Porta esterquilinária e que são para lapidar os profetas!”[15].

         Mas o contato de Eliziel com Jesus não se dá apenas através das palavras de João. Primeiramente, ele presencia um dos atos célebres, segundo os Evangelhos canônicos: a absolvição da mulher adúltera. Segundo a tradição judaica de então, o adultério é um dos crimes punidos através da lapidação até a morte. Quando consultado pelo povo sobre que tipo de pena se deveria dar à mulher de Jesus Bar'Abbas, que havia sido pega em flagrante adultério, Jesus responde: “Sim, lapidai-a! E aquele de vós outros que se julgar sem pecado, que lhe atire a primeira pedra!”[16]. Assim Eliziel registra o impacto que lhe causa tal atitude:

 

Eu, que tantas vezes assistira às lapidações de adúlteras, estava concentrado, absorto; aquela palavra, caída no meio da minha educação judaica, perturbava toda a organização do mundo interior que nos habita. Alegrava-me em ver com uma palavra simples e genial, a hipocrisia duma raça ferida na sua essência: tinha admirações inesperadas pelo espírito harmonioso do Mestre da Galiléia.[17]

 

Esse episódio terá tratamento diferente em A relíquia. No romance, ele vem à baila na discussão dos judeus opositores de Jesus com Gad. Nesse momento, Gamaliel, comentando a vida dissoluta do moço da Galiléia que, segundo ele, “chegava, no seu impudor, a tocar as fêmeas pagãs, e outras mais impuras que os porcos...”[18], diz ainda que “quando o Rabi Jeschoua, desprezando a Lei, dá à mulher adúltera um perdão que tanto cativa os simples, cede à frouxidão da sua moral e não à abundância da sua misericórdia!”[19].

         Se n'A relíquia esse episódio parece ter a função de, tal qual a passagem da expulsão dos vendilhões do Templo, mostrar sob um outro ângulo um comportamento de Jesus, possibilitando que se faça a ele mais uma crítica, em “A morte de Jesus” o ato de  absolver a mulher adúltera é visto de maneira positiva. Para Eliziel, Jesus, com uma palavra simples e genial, revela a hipocrisia duma raça ferida na sua essência, o que o faz admirar mais ainda o  Mestre da Galiléia e o leva a esperar que ele seja a “regeneração de Israel”[20]. Isto também o motiva a procurar Jesus e o instigar a que lidere uma revolução:

 

– Eu digo que és um homem justo e uma elevada consciência das coisas divinas. Digo que és um homem mandado providencialmente, num tempo humilhado e vil, para erguer as almas, desmascarar as hipocrisias, vingar a pátria! Penso que se tens de ter uma ação no mundo, essa deve ser insurgir-te contra a aristocracia do Templo, contra este espírito estreito de Jerusalém, contra este culto pagão das tradições, contra o fariseu e contra o romano, ser o consolador e ser o vingador![21]

 

– Rabi, Rabi, depois do fariseu, será a vez do romano! Tu serás o maior da Judéia: terás glorificado o pobre, terás humilhado o rico, terás aniquilado o hipócrita, terás expulso o romano: serás pela justiça igual a Ezequiel, pela força igual aos Macabeus: serás como David, terás a Palestina desde o Jordão até ao mar, e serás o rei de Israel.[22]

 

Jesus discorda de todas as palavras de Eliezel e, para terminar a discussão, diz “Vai-te: o meu reino não é deste mundo!...”[23]. O conto termina logo a seguir com o Rabi retornando à Galiléia. Tudo leva a crer que realmente ficou inconcluso, pois, apesar de o título ser “A morte de Jesus”, não narra esta morte, mas apenas alguns momentos da vida de Cristo sob a óptica de um soldado do Templo.

É interessante que o episódio da expulsão dos vendilhões do Templo, nos Evangelhos segundo Mateus, Marcos e Lucas, acontece pouco antes da Páscoa e da Paixão de Cristo, sendo que, após esse acontecimento, Jesus não retorna à Galiléia, mas fica pregando no Templo e nos arredores de Jerusalém, aguardando a festa religiosa judaica (Mt 21, 12-13; Mc 11, 15-17; Lc 19, 45-48); o que torna mais fácil também que seja encontrado e preso. Já no Evangelho segundo João, Jesus retorna à Galiléia depois da expulsão dos mercadores[24], tal qual a versão do conto de Eça de Queiroz.

Como facilmente se percebe, o tratamento dado a Jesus neste conto é muito diferente da forma como ele é tratado em A relíquia. Nos dois casos a história é narrada na primeira pessoa, por personagens distanciados temporalmente dos fatos que narram, e que não deixam de ter a intenção de encerrar “uma lição lúcida e forte”, parodiando aqui as irônicas palavras de Teodorico Raposo no prólogo de suas memórias. Porém, enquanto para Teodorico é a sua vida que encerra uma lição lúcida e forte, devendo, portanto, servir de modelo aos que o lerem, para Eliziel o que é preciso é que não se perca a lembrança da vida do profeta de Galiléia, é essa vida que deve servir de modelo aos seus prováveis leitores.

Afora essas divergências que temos apontado, o que por ora mais nos interessa na comparação entre esses dois textos é o tratamento dado neles à figura de Jesus Cristo. Enquanto que em A relíquia, como vimos, nem o Cristo da visão consegue impor uma mensagem moral a Teodorico, já que este conclui que a hipocrisia não é inútil desde que seja ilimitada, em “A morte de Jesus”, apesar de a obra não ter sido provavelmente concluída por Eça, é patente que a maneira como o personagem é retratado é mais elevada, e que está relacionado, provavelmente, com o perfil do narrador, como já foi comentado anteriormente. Ou pelo menos, não há nesse conto uma versão heterodoxa para a vida de Jesus. Mesmo Eliziel questionando de forma crítica o comportamento do Rabi da Galiléia, pelo fato de ele não querer liderar uma revolução, considerando incoerente que Jesus queira mudar o mundo apenas “acariciando as cabeças loiras das crianças de Chorazim, e contando parábolas, entre os campos, aos simples e às mulheres”[25], mesmo assim, as idéias presentes nesse conto mantém a filiação ao texto bíblico. Ou seja, nada nesta outra versão da vida de Cristo, contraria o que a ortodoxia fixou como canônico.

Mas é justamente nessa crítica de Eliziel, na cobrança que ele faz a Jesus por ele não liderar uma revolução que expulsasse os romanos e unificasse o povo de acordo com leis consideradas por ele como mais justas, é precisamente através dessas críticas que podemos ver as posturas do escritor português. Em “A morte de Jesus”, escrito quando Eça tinha em torno de 25 anos e praticamente um ano antes de um período tão combativo de sua vida e de sua Geração, como foi o ano das Conferências Democráticas no Casino Lisbonense, já observamos o caráter crítico e revolucionário que marcará o escritor de maneira indelével.

Se ainda estamos diante de um Eça no início de carreira, bastante jovem e sem a maturidade pessoal e profissional que conquistará com os anos, já o encontramos, porém, adotando uma postura bastante crítica diante de Jesus Cristo. O narrador desse conto, se ainda não alcançou a ironia e o estilo mordaz que caracterizará o autor de A cidade e as serras na maturidade, esse narrador já  apresenta, entretanto, uma crítica a Jesus que é precursora do estilo combativo que Eça adotará mais tarde. Podemos pensar isto porque Eliziel espera e cobra do Cristo o que Eça e a sua Geração certamente cobravam de si próprios: “és um homem mandado providencialmente, num tempo humilhado e vil, para erguer as almas, desmascarar as hipocrisias, vingar a pátria[26].

 

 

Referências Bibliográficas:

 

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REIS, Carlos. Estratégia narrativa e representação ideológica n’A relíquia. Colóquio Letras, Lisboa, n.100, p. 51-59, nov.-dez., 1987.

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REMÉDIOS, Maria Luiza Ritzel. A relíquia: duplicidade do sujeito na ficção queirosiana. Anais do III Encontro Internacional de Queirosianos. São Paulo: Centros de Estudos Portugueses da FFLCH da USP, 1997. p.402-408.

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SARAIVA, António José.  As ideias de Eça de Queirós. 2. ed. Lisboa: Livraria Bertrand, 1982.



[1] Cf. Matos, 1988, p.413. “A morte de Jesus” faz parte da coletânea Prosas bárbaras, publicada postumamente em 1903. A edição que estamos utilizando, de 1945, é de responsabilidade da Lello & Irmão, p.167-237.

[2] Reis, 1945, p.L.

[3] Queiroz, 1945, p.169.

[4] Cf. Abreu, 1997, p.301-302 passim.

[5] Cf. Matos, 1988, p.219-220, p.273-274 e Araújo, 1988, p.221-224.

[6] Queiroz, 1945, p.171.

[7] Queiroz, 1945, p.172. O curioso dessa passagem, além da ausência de qualquer referência indicando os primeiros passos do Cristianismo primitivo, é que, contrariamente a versão bíblica, Judas não é provavelmente o discípulo traidor de Jesus, pois parece ter morrido não há muito tempo “sossegado e obscuro”.

[8] Queiroz, 1945, p.172.

[9] Queiroz, 1945, p.175.

[10] Queiroz, 1945, p.175-176. É interessante pensar que a descrição que faz aqui de Jesus se aproxima demasiadamente da maneira como Eça descreve Antero de Quental em “Um génio que era santo” (Queiroz, 1896, p.481-522), com expressões e metáforas tiradas dos Evangelhos. Nesse seu depoimento emocionado sobre o amigo chega a compará-lo explicitamente ao Messias: “Antero não era só um Chefe – mas um Messias” (p.492).

[11] Lembramos aqui das palavras de Teodorico no prólogo, quando critica a obra de Topsius, Jerusalém passeada, por nesta estar escrito que ele, Raposão, viajou à Terra Santa com os ossos dos antepassados embrulhados num papel pardo. O que o incomoda nesse instante não é a impropriedade dessa informação, mas o fato de ela desacreditá-lo perante a “Burguesia Liberal, omnipresente e omnipotente”, já que só graças a ela é “que se alcançam, nestes tempos de semitismo e de capitalismo, as coisas boas da vida, desde os empregos nos bancos até às comendas da Conceição.” (Queiroz, 1950, p.10-11). E aqui temos novamente registrado tanto a crítica irônica de Eça como o tom profanador de seu discurso: de um lado atribui à “Burguesia Liberal” qualidades da ordem do sagrado, que só os deuses possuem, a onipotência e a onipresença, de outro, afirma que só a ela cabe distribuir seja empregos, seja comendas de ordens religiosas!

[12] Já num outro momento da obra eciana, n’O Mandarim (1880), o Diabo, ou uma de suas máscaras, aparecera a Teodoro, narrador-protagonista deste romance, assumindo a face de um “indivíduo corpulento, todo vestido de preto, de chapéu alto, com as duas mãos calçadas de luvas negras gravemente apoiadas ao cabo de um guarda-chuva. Não tinha nada de fantástico. Parecia tão contemporâneo, tão regular, tão classe-média como se viesse da minha repartição...” (Queiroz, 1951, p.28). Por essa descrição, não seria difícil reconhecer nesse “Mefisto” a imagem de um indivíduo tipicamente burguês. Ou seja, podemos pensar que, já em outro momento de sua obra, Eça de Queiroz havia associado à Burguesia a imagem do Diabo.

                [13] Queiroz, 1945, p.183. Gostaríamos de relembrar que Eça admitiu que A relíquia é uma paródia do Evangelho segundo João. É interessante que aqui é um João da Galiléia, discípulo de Jesus, que instrui Eliziel na vida de Jesus de Nazaré e na sua doutrina.

                [14] Queiroz, 1945, p.187-189 passim.

                [15] Queiroz, 1945, p.192.

   [16] Queiroz, 1945, p.228.

   [17] Queiroz, 1945, p.228-229.

   [18] Queiroz, 1950, p.180.

   [19] Queiroz, 1950, p.181.

   [20] Queiroz, 1945, p.229.

[21] Queiroz, 1945, p.232-233.

[22] Queiroz, 1945, p.236-237.

[23] Queiroz, 1945, p.237.

[24] No Evangelho segundo João, o episódio da expulsão dos vendilhões ocorre logo após as bodas de Caná, (2, 13-16), sendo que só depois Jesus retorna à Galiléia (4, 43-45), peregrinando por várias regiões até a derradeira entrada em Jerusalém (cap. 12, 12 et seq.), “triunfal”, segundo as narrativas bíblicas, pouco antes da sua prisão e condenação.

[25] Queiroz, 1945, p.233.

[26] Queiroz, 1945, p.232-233.